terça-feira, 12 de junho de 2012

Onze Dúvidas Teológicas

E minhas respostas à elas

Perguntas formuladas pelo amigo Fernando Bastos.


1 - Religiosos dizem que uma criança, quando é curada de um câncer, foi graças às orações. No entanto, por que antes do século 20, quando a medicina não possuía recursos suficientes, as crianças com câncer morriam em pouco tempo, apesar das orações?
Bom, se formos levar em consideração a literatura religiosa e até alguns jornais da época (citados por livros religiosos), os milagres, e nesse caso me refiro não apenas ao câncer, são relatados há muito tempo. Grandes personagens cristãos tiveram o seu ministério baseado nos milagres e na chamada "cura divina": Jonathan Edwards (1703-1758), John Wesley (1703-1791), Charles G. Finney (1792-1875) e outros mais recentes como Stephen Jeffreys (1876-1943) e William Branham (1909-1963). Portanto não se pode afirmar categoricamente que todas as crianças de outrora morriam apesar das orações, pois entre os milhares de milagres ocorridos bem por certo poderiam haver casos de câncer. 

2 - Antes de Jesus vir ao mundo, os antigos acreditavam em vários semideuses que nasciam de mulheres fecundadas por algum deus. Por ex.: Hércules, Dionísio (Grécia), Zoroastro (Pérsia). Hoje, historiadores veem isso como lenda. Que prova temos que o caso do nascimento milagroso de Jesus, é uma verdade histórica?
 Sobre essa questão não posso de fato apresentar provas irrefutáveis. Mas se me permite, gostaria de engendrar um raciocínio partindo do pressuposto que os historiadores modernos não tem o poder da verdade absoluta. Então da mesma forma que não se pode provar, também não é possível refutar a realidade desse nascimento miraculoso. Aliás, nem desse, nem dos outros. Assim usando de uma argumentação jurídica, que afirma ser o réu inocente até ter a sua culpabilidade provada é lícito acreditarmos nesses prodígios. Além é claro de particularmente entender que muitas revelações divinas não são exatamente um primor em provar as suas veracidades e acredito que são exatamente feitas com esse propósito, no sentido de que estimulam o individuo a usar a sua fé, que de acordo com a doutrina cristã é uma condição sine qua non a fim de se conseguir a salvação. 

3 - A Bíblia autoriza a morte por apedrejamento de adúlteros, homossexuais, astrólogos, espíritas, quem segue outro deus. Jesus disse que não veio abolir a lei (Mateus 5,17) e o profeta Isaías disse que a lei é para sempre (Isaías 40,8). Por que então (felizmente) a Igreja cristã nos dias de hoje não continua a matar os infiéis?
Antes de responder a essa pergunta devemos deixar claro que o cristianismo e o judaísmo, apesar de terem a divindade em comum, são duas religiões diferentes. Essa pergunta mistura os dois sistemas religiosos e a ela respondo dizendo que a a Bíblia não pode ser interpretada apenas usando alguns versículos, mas sim no seu todo. E fazendo assim uma correta exegese do livro sagrado veremos que a Lei tinha a obrigação de ser cumprida a risca até Cristo, após ele foi instituído um novo concerto onde o radicalismo cedeu seu lugar a tolerância, lugar onde o próprio judaísmo tradicional deu seu lugar ao cristianismo, mais brando e "amoroso" (uso as aspas, pois em alguns momentos da história os cristãos esqueceram esse lado da bondade e perpetraram abusos, como na época da caça às bruxas da Inquisição). Assim uma resposta plausível a essa pergunta seria dizer que o Cristianismo, apesar de usar a Bíblia como livro base, não a interpreta literalmente como era praxe entre os adeptos do judaísmo.

4 – O deus bíblico, arrependido de sua obra, afogou seus filhos num grande dilúvio, não poupando nem crianças de colo; autorizou o exército de seu profeta invadir e matar homens, mulheres e criancinhas das tribos vizinhas que cultuavam outros deuses; enviou pestes que exterminaram milhares de hebreus que reclamavam do maná que comiam no deserto. Por que os cristãos chamam a esse deus de bom e sábio?
Para essa pergunta precisamos deixar claro que bondade demais não é uma virtude, mas um vício. O filósofo Aristóteles bem definiu que a virtude consiste na moderação das ações e vontades. Portanto no caso do extermínio dos hebreu, um deus que fosse conivente com a desobediência e rebeldia do "seu povo" não estaria sendo bom, pelo contrário estaria prestando um desserviço a esse povo deixando que acabassem se autodestruindo na ausência de limites. Esse cuidado divino é expresso nas ordenanças em forma de leis que na verdade tinham como objetivo preservar a saúde dos hebreus (ex. abluções, circuncisão e proibição de ingestão de sangue de animais). 
Sobre o dilúvio tenho cá minhas dúvidas sobre a área de abrangência dele, pois como anteriormente escrito, não costumo interpretar as escrituras ao pé da letra, portanto não estou bem certo de que todas as espécies do planeta tenham sido afetadas por esse episódio. Contudo, se assim o foi o próprio Deus teria reconhecido depois que agiu com extrema rudeza (o que numa interpretação mais sarcástica de minha parte atribuiria ao fato de que Deus ainda estaria nos primórdios do seu mandato, pois depois de ter agido dessa maneira sanguinária por muitos anos ele teria mudado o seu estilo ali pelo fim do Antigo Testamento, numa prova de que Deus foi evoluindo com o passar do tempo, mas essa é uma elucubração descabida de provas legítimas, uma hipótese tão non-sense que provavelmente negarei que a tenha formulado algum dia, pois a mesma ainda não se encaixa de forma alguma no modelo teológico que venho tentando formular ). 
Sobre a morte dos "inimigos", faria sentido se o modelo politeísta fosse verdadeiro. Um deus estaria assim sempre interessado em demonstrar que ele era o melhor, mas como acredito que haja um único Deus eu não consigo achar outra explicação senão a de que ou os líderes hebreus estavam usando indevidamente o nome de Deus ou que Deus tinha algo maior a ensinar, algo do tipo "isso acontece quando vocês não seguem ao Deus verdadeiro". Nesse caso teria de ter havido uma oportunidade para que esses povos aceitasse seguir a Jeová e que houvessem recusado esse "convite". Como não creio que isso tivesse acontecido fico um tanto quanto desprovido de argumentos lógicos para defender essa atitude altamente condenável pelos princípios cristãos. Uma ressalva válida talvez seria dizer que culturalmente era exatamente isso que acontecia entre os povos da antiguidade, guerras sangrentas e não de todo "humanas", portanto pode se dizer que Deus estava apenas seguindo o conceito geral da época, o que meio que até serve como resposta alternativa a pergunta nº 3. 

5 - Católicos acreditam que a Virgem Maria apareceu em diversos lugares e falou com algumas pessoas (geralmente crianças ou adolescente, católicos fervorosos, com baixa instrução escolar). Por que ela nunca aparece para islâmicos, budistas, hindus e judeus, justamente aqueles que nunca ouviram falar dela?
 O catolicismo a meu ver há muito tempo não representa mais a teologia cristã, apesar de professarem o cristianismo, na prática seus dogmas e sua práxis refletem uma religião totalmente desligada do cristianismo original. Portanto no meu cristianismo não há lugar nem para a virgindade eterna de Maria, nem para a sua aparente divindade. Pois essas "aparições" só fariam sentido num ser divino, já que aos humanos, espécie a qual a mãe do Cristo sempre pertenceu, não é permitido voltar ao mundo dos vivos após a partida desse mundo. Volta ainda menos admissível na forma de "espírito" como esses casos sugerem. Até indo um pouco além, sou totalmente cético em relação a aparições de quem quer que seja. É notório que a Bíblia relata muitos casos de aparições angelicais e divinas, mas em sua maioria no Antigo Testamento. Indo nessa linha de pensamento o apóstolo Paulo escreveu em uma de suas cartas que a revelação deveria ser considerada completa e que se outro evangelho fosse proposto, mesmo que por anjos, ele deveria ser rejeitado. Portanto as aparições de santos ou de anjos, que invariavelmente apresentam um que outro ponto controverso (ex. o anjo Moroni do Mormonismo), devem ser todas rejeitadas e atribuídas ou a uma imaginação piedosa e fértil facilmente estimulável, a mau-caratismo puro por parte dessas pessoas ou ainda a uma tática de desinformação perpetrada por "satã e seus asseclas".

6 - Cristãos acreditam que existe o mal no mundo porque Adão e Eva comeram o fruto proibido e Deus puniu a raça humana. Mas se ele é presciente, e já sabia que eles iriam transgredir sua ordem, por que não evitou a desgraça dos seres humanos? E é justo punir uma raça inteira por causa do erro de duas pessoas?
Sou um tanto cético em relação a essa presciência divina. Não quero correr o risco de incorrer em uma blasfêmia, mas na minha opinião essa característica de Deus se refere as nossas opções e a consequência que advém das nossas escolhas. Não significa portanto que ele saiba de antemão o que nós vamos de fato fazer ou escolher, mas com base em escolhas anteriores ele pode prever com alguma margem super elevada de acerto o caminho que escolheremos e a partir daí prever o nosso futuro. Essa visão também vai de encontro com o que alguns chamam de destino, se de fato existe algo assim é um caminho que Deus entende ser o melhor para desenvolvermos nossas potencialidades e alcançarmos a felicidade. Agora, não acredito que ele mova céus ou terra para fazermos trilhar esse caminho, isso iria contra a noção de livre arbítrio com a qual ele nos dotou. No máximo ele pode tentar nos alertar, mas obrigar descreio. Portanto evitar a desgraça humana iria contra os princípios da divindade.
Quanto a origem do mal, eu diria que é ainda mais antiga do que Adão e Eva, pois antes deles a Escritura relata a queda dos anjos rebeldes liderados pelo então querubim Lúcifer. Nesse episódio é que eu vejo a revelação do mal, não o seu nascimento, pois sendo o universo um modelo dualista, o mal e o bem sempre existiram desde a criação do universo.
Outrossim, não interpreto o caso do fruto proibido como um fato isolado, ele foi o prólogo de uma história que teve seu desenvolvimento em Jesus, e terá o seu epílogo no "fim dos tempos". A própria sentença proferida por Deus no episódio já previa que a redenção viria, isto é, a punição não seria eterna. 

7 - Cristãos acreditam que Moisés recebeu leis de Deus. Mas antes disso, reis sumérios, babilônicos, etc,  também trouxeram leis ao povo, e diziam terem sido inspirados por um deus. O que você pensa disso?
Quem idolatra a figura de Moisés são os judeus, nós cristão de fato concordamos que Deus tenha revelado a ele detalhes de acontecimentos anteriores e mandamentos para o povo hebreu. Para justificar isso penso que o fato de várias versões ditas diferentes concordarem em algum ponto revela que deve haver um fundo de verdade, um elo que ligue essas diferentes histórias. Cito como exemplo o dilúvio, que de uma maneira ou outra é encontrado em mais de 250 contextos culturais diferentes ao longo dos cinco continentes. É muito provável que os relatos que chegaram até nós, sejam dos sumérios, sejam dos hebreus ou dos hindus, tenham sido passados ao redor de fogueiras de uma geração à outra e que na sua versão atual destoem do realmente ocorrido, mas por toda essa diversidade de relatos é de se crer que de fato algo dessa natureza haja ocorrido em algum momento da história. Assim, é possível acreditarmos que de fato houve uma determinada época onde Deus revelou a sua vontade à humanidade. Se foi com Moisés, com Gilgamesh ou com Hamurabi eu particularmente creio que só podemos supor. Afinal, cada um deles pode ter escrito o seu relato da história querendo toda a fama pra si, mas isso não deve nos impedir de acreditar no fato que os relatos delineiam.

8 - Católicos creem que o papa fala inspirado pelo Espírito Santo. Por que Bento 16 precisou consultar cardeais para decidir pela abolição do limbo?
Repetindo o que já escrevi anteriormente, o catolicismo a meu ver há muito tempo não representa mais a teologia cristã, apesar de professarem o cristianismo, na prática seus dogmas e sua práxis refletem uma religião totalmente desligada do cristianismo original. Assim, na minha opinião o papa nunca teve essa inerrância ou infalibilidade que a ele é atribuída e a consulta aos cardeais deveria ser uma constante na hora de se propor mudanças na doutrina da igreja. E não seria nenhuma novidade, vide os vários concílios que já ocorreram no passado. 

9 - Alguns teólogos cristãos ensinam que um homem que cometeu estupros e assassinatos, mas se arrependeu no último minuto de vida, confessou os pecados e confirmou sua fé em Cristo, vai para o céu. Já um judeu, por não acreditar em Jesus como filho de Deus, vai para o inferno, mesmo que tenha sido bom pai e honesto toda sua vida. Mesmo assim, Deus é justo?
Na minha visão de cristianismo essa comparação não é possível. O primeiro caso eu diria que a salvação é aberta para todos em todo o tempo, independente do que houvermos praticado durante a nossa fase de “ignorância” ao tomarmos conhecimento da verdade seremos libertos dessas práticas e assim teremos nossos erros apagados. No caso do judeu, ele não irá ao inferno, não automaticamente, visto que a própria Bíblia assegura que os judeus desempenharão um papel importante no chamado Apocalipse. Então é possível sim a um judeu, mesmo não aderindo ao cristianismo conseguir a sua salvação mediante o judaísmo. Outro detalhe é que Deus toma pra si a responsabilidade de definir quem irá ao inferno e quem herdará o céu, portanto não me admiraria de chegar ao céu e lá encontrar pessoas que aparentemente não deveriam estar lá, afinal a misericórdia divina é infinita. E por outro lado, a própria Bíblia afirma que algumas surpresas ocorrerão no tocante a salvação, pois nem todos os que aqui aparentam santidade são de fato dignos desse epíteto. 

10 – Cerca de 90% dos cientistas e filósofos não acreditam nos deuses das religiões. Dizem que são criações humanas. Alguns deles admitem a existência de um Ser criador, mas que não participa dos assuntos humanos. Por que quanto mais culto, menos se acredita nos deuses das religiões?
Essa sua pergunta deveria ser reformulada. Você cita os pensadores como descrentes e depois quer chegar a conclusão de que a maior parte das pessoas descrê das religiões. Mesmo que a porcentagem apontada esteja correta esse índice não se reflete na sociedade como um todo. Uma pesquisa encomendada pela BBC no começo da década passada apontou que 92% das pessoas acreditavam em algum deus. De lá pra cá algo pode ter mudado, mas não pra dar maioria aos “descrentes”. http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI272711-EI312,00-Pesquisa+revela+que+acreditam+em+Deus.html#tarticle

11 – Há religiosos que dizem que somente quem crê no seu Deus pode ser bom. Por que é justamente nos países onde o número de ateus e sem religião é maior, há mais respeito aos direitos humanos e as taxas de criminalidade são menores?
Mais uma pergunta capciosa, esta tenta fazer crer que a razão da civilidade ou da paz desses países seja causada unicamente pelo fator religioso, quando na realidade uma série de fatores deve ser levado em consideração desde as condições socioeconômicas até fatores de cunho histórico. 
Ao mesmo tempo, apesar da quase total inexistência da violência nesses países, alguns rankings trazem esses países como líderes em casos de suicídios e casos de depressão a se usar a interpretação contida na pergunta podemos dizer que é a falta de religião que provoca esses comportamentos. O que na realidade não se pode ainda provar.
Assim, convidaria a olhar para a outra ponta da tabela afim de ver que existe uma questão pertinente nesse contexto. Os países mais fundamentalistas religiosamente falando, estão entre os mais violentos e aí pode-se perceber claramente que já é uma questão de radicalismo religioso, que eu particularmente não considero uma parte sadia da religião, mas sim um factoide distorcido da mente de uma minoria. Ex: Iraque, Afeganistão e Israel.